sexta-feira, 24 de abril de 2015

Esferográfica de cartão

quando o sol se deita sobre a
areia e se deixa afogar no oceano
aflito ainda me doem as costelas;
os pulmões incapacitados à espera
do teu perfume numa esquina
magnética. a cidade a assobiar
as músicas que dançam nos teus
olhos. as janelas vão fechando
com o passar das horas e rompe
um frio estático que subtrai a
sensação possível.

conto os passos entre o teu sorriso
e o coração e aponto num
guardanapo dobrado em forma
de cisne
para não me esquecer que
o tempo é a consequência
de não ser completo; uma
espécie rara de infinito
que começa do fim
para o princípio.


tenho uma ferida no
tornozelo e o teu nome
desenhado num
olhar vazio e perene. 

terça-feira, 31 de março de 2015

Coffin

há dias em que a verdade nos serve melhor; em que a consciência do corpo cansado é a única saída para a decantação do silêncio. estilizar o sorriso; envernizar o olhar perdido na memória dos teus lábios já não é suficiente para resolver esta respiração desordenada; a mão que embarca no externo sente o magnetismo de um coração que acaba. todos os beijos que ainda são teus rompem de dentro dos braços como agulhas; lágrimas de sonho, outra vez. / nestes dias apenas a tristeza, os olhos parados sobre o vidro da montra deserta. as palavras e o autor, hoje, em decadente sintonia. 

terça-feira, 24 de março de 2015

O que resta do poema inteiro?



para o Herberto Helder

a escansão do verso sobre
o silêncio de pedra; as
articulações detríticas
a combinar a dor de ser
com a mágoa de existir:
a causa provável para
o sangue que verte
do topo das montanhas é
uma verdade constante
que adormece na guilhotina.
os poemas todos serão sempre
palavras pequenas, pausas de
cobre a atravessar o inverno.
o caminho de ferro com o
pescoço irritado do
arquétipo da concepção.
a rouquidão do poema
contínuo em fuga e
o corpo plasmolítico deitado
no mármore rosa.
um esgar de soçobro
e de escárnio a
esconder a inocência
de uma morte que não acaba
e os estalinhos de carnaval sobre
o fim de um corpo fértil que se
não queria. que escondeu
no tempo a desilusão última
da vida entorpecida pela
palavra impossível:
o espelho que reflecte
a luz sobre a cegueira.

segunda-feira, 23 de março de 2015

prospecção do real - capítulo vigésimo segundo

esta mão fria sobre o
peito a induzir a morte ;
os animais eléctricos a romper a
carne por dentro e o quarto
cheio de álcool a soprar um
poema acabado sobre as velas
do moinho de pedra.


quando um corpo arruinado
dança sobre as memórias de
ser completo,
tendo a recitar os poemas que
nunca escrevi. a sublinhar
as expressões faciais dos
grandes poetas nos livros
de fotografias
como se os rostos me adornassem
a tristeza com uma luz especial;
um estranho encanto na
incompetência de ser feliz. 

sábado, 7 de março de 2015

Didascália XIV

há um silêncio que se apaga
dentro do tempo que não passa.

fecho a porta devagar
com o barulho de um fim
de frase.


quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Radish tear



I’ll probably try
everything
over and over
just to make sure
I achieve the finest
failure.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

καρότο




There’s nothing left;
the filthy floor,
rubber bands, lemon
juice and a bunch of
burnt spoons.
I find my way through
the doorsteps and
cuddle with this warworn
pillow. the blankets
have never been tidy, I know;
but so doesn’t my heart.  the
dilapidated eye of god is the
thorn under my chin; acres of
silence and a shallow well; 
should I be good?
[The loveliness of the question mark,
 like the fragmented body of  a muse]. 
 
I hold my mouth; stop my hands
from moving around your neck;
my lips from blossoming
a whole new way of kissing.
I draw a tree with a bird
and swallow the smoke
of the last cigarette.
a wildfowl dances
under the double-edged
knife I keep inside
my left lung; a flute
which is not meant to be
played. an abandoned
factory of bauble.

Tonight I disappear;

and Chopin goes on
playing as if he knew
I was supposed to.
as he had predicted
the uselessness of my
soul and body for love
purposes
 already.