segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Frigorífico de Pasteur


as terras lavradas consomem o inverno
em que me deito. a forma das margens
a edificar o território das palavras e dos
que ainda sabem escrever sorrisos,
abraços que flutuam na pluralidade do mundo.
o fastio dos dias que acabam em silêncio
sobre a mesa fria e os dentes enegrecidos;
as mãos, as unhas sujas do tempo gasto
a procurar o espaço dos corpos entre as
plantas de mármore. lançamos o pião
e esperamos que pare de rodar; o barulho
do metal sobre o eco de nenhuma voz.
obedecemos ao processo simples do mundo
e acabamos os sonhos de manhã enternecidos
com o esquecimento, o desespero de não saber
o cheiro do corpo sintáctico que ocupa
o espaço; o tempo; a vida que resta.
e dança veloz em largos movimentos
de árvore; terra fértil de arados
a ocupar o inverno; a consumir o
corpo deitado que se arrasta para as
margens e sorri desmesuradamente
na esperança de uma palavra melhor -
mais bonita - que felicidade.
a terrível transparência da gramática.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

cinético relativo



a mesa; a cadeira ao centro de uma
geometria quase perfeita. as mãos
frias e doridas de tentar moldar a
madeira indecisa. a resina
inconsistente e as articulações dos
homens de trabalho são a música de
natal possível quando o barulho das
máquinas denuncia um tempo em
que se podia amar para sempre,
morrer devagar no espaço tépido
em que os lábios, as sombras do
corpo que dança, os dedos
humedecidos a enrolar o cabelo
num vocabulário impróprio.
as palavras crescidas e os lábios
que morrem com vestidos de seda;
flores bonitas no cabelo enrolado
e um silêncio campestre mecanizado.
esvazio o peito e espero um novo
fulgor [vírgula] para sempre. 

sábado, 29 de novembro de 2014

Camisa de bombazina: estudo de natal



assobio para o lado a poesia
toda de não ser feliz;
o tecido inconsútil do sorriso.
na escada partida do hospital
correm insectos e membros dilacerados.
escutamos o vento e as mulheres
dançam em espiral na sala da enfermaria
em que o café; as máquinas avariadas
com snacks do outro lado do vidro;
demasiado espaço invisível a separar os
meus lábios. o braço esquerdo prestes a partir
e a música do telemóvel em espera com
a voz de alguém que morre do outro lado
da linha. cose-se o queixo amarelo
com fio de pesca “para não se ver o
sorriso que os mortos deixam agora”
e
apaga-se o número do pescoço; a
identificação dos órgãos a sobrar do
corpo, do espaço metafísico que é o
poema: um animal ferido na planície
de pedra. nenhum arbusto, tão pouco,
para esconder o silêncio e morrer em paz;
adormecer no comboio que atravessa
a ponte e saltar com os olhos fechados;
um livro de poemas na mão esquerda,
o braço prestes a partir e os lábios separados
por dentro; uma linha partida de fio de
pesca e o teu olhar plano a explicar que,
um dia, talvez um abraço me sirva
e se esgotem as palavras; os poemas;
as máquinas de insectos em espiral.
este beijo de vidro no pescoço.

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Vegetable Candy



Her hair was curly;
she was beautiful.

my wrists are unblemished.
I cross the threshold of anguish;
eyes closed, bare feet
and some ripped clothes;
sweat stains under my
arm pits. the existence
is dirty – Kierkegaard should
know it better -  and I whistle
like a nation would; ready
to be demolished and
fall into oblivion.

I repeat: my wrists are
unblemished -
the uttermost evidence
of the existence of god.  
               

domingo, 16 de novembro de 2014

Vinte e dois nós e meio



espalhar as canetas sobre a mesa; o tampo
manchado de vinho e sangue.
a tinta e o plástico; a tampa roída de outras
noites sem dormir . acender um cigarro
com um fósforo molhado e morder o filtro
para não chorar. 

se chegares entretanto não faças barulho
- a terceira tábua depois  da porta tem o hábito
de ranger quando se passa sobre ela devagar -
agarra-me o braço adormecido como se não estivesse
já demasiado frio. movimenta-o de um lado
para o outro e diz que o amor, afinal, não
se despede sozinho. não se vende na
loja de conveniência na prateleira
dos napperons. apaga as luzes;
fecha os olhos: os teus. o que fui
leva-o contigo e deixa que a densidade
da noite se abata sobre o telhado;
sobre este corpo que sonhou
irremediavelmente.

Fertilidade de Péricles



uma pedra sobre a síntese
do corpo e as tuas palavras
todas a povoar o quarto
vazio; as paredes cheias
de animais (quase) vivos
e o movimento mecânico
das pernas cansadas
a consentir o espaço
que se ocupa durante noite;
os livros ainda sobre a mesa
partida são o reflexo do solstício;
a agonia e o elástico degradado
como se a apertar umas folhas
vazias a cheirar a limão.
a estrutura das mãos marcada
na contracapa e o teu assobio,
em contra-tempo, a subtrair ao
universo todas as teorizações
possíveis. a estética, a morte,
o movimento mecânico das palavras
sobre as pernas cansadas; o espaço
consentido no meu peito para um
reflexo invisível .
o rosto intensamente azul e os
pés frios a segurar a matéria
inaugural; um rio a formalizar
a fluidez da alegria num tempo
em que as cheias habitam a
penumbra íntima; os lábios secos
a dificultar a articulação e
alguém deitado na minha
cama a recitar a Ilíada em
latim. as palavras mecânicas
e cansadas sobre o movimento
das pernas. a noite a cheirar
a limão e os meus olhos (sempre)
demasiado perto dos joelhos
para proteger o mundo
da percepção incauta; a vontade
fértil do horizonte mínimo.  
se puderes abraça-me, ainda,
quando a noite, o espaço,
o cansaço; o sorriso mecânico.