terça-feira, 29 de abril de 2014

Runover a smile

cabe-me na mão um arbusto com
silêncio, ainda, dos teus olhos
fechados.

esse beijo que já não é meu
aperto-o entre os dedos
cerrados e os ossos húmidos
do peito.

domingo, 20 de abril de 2014

Easter egg


o animal mecânico e as
entranhas electromagnéticas
a correr, ainda, sobre as mesas
partidas da taberna. os homens
cansados; as vozes de homens
cansados a fugir da cama; da
casa em que o silêncio já não
serve para sorrir. os olhos
que acabam, os lábios que
se tocam e são vértices de
árvores centenárias a corroer
a colisão dos corpos.
o meu corpo; o teu.- o calor
enternecido das palavras
entre a janela e a cama
fechada; só as pernas e
os braços em chamas sem
que nenhum incêndio.
a língua
a deslizar sobre o peito de
vidro; o berço de madeira
a deitar sobre os sonhos
o que resta da(s) noite(s)
em que podia olhar para ti
como se um beijo e fechar-me
como se uma música qualquer;
uma voz sincera a considerar
que o amor;

-
beija-me. diz, hoje,
que não te esqueces de mim;
que danças comigo mesmo que
chova. que desista, se quiser,
para dentro do teu abraço. 

 

terça-feira, 1 de abril de 2014

Replay if

na parede em
que as mãos,
ainda;
sobram as flores
secas de outra noite;
demasiados cigarros
sobre um colchão
enternecido pelo amor.
os buracos e os meus
olhos compenetrados
no vazio de ser inteiro;
de procurar na
parede que sobra
das mãos uma razão
para juntar os estilhaços;
a criança de novo
com um puzzle de areia
entre os dedos - as paredes;
o colchão por lavar
aos pés da cama e o fumo,
ainda, a desenhar no espelho
outro reflexo de ti.

domingo, 30 de março de 2014

estância boreal



as pernas adormecidas
e o corpo deitado para
o lado de dentro.
escolhemos as cartas
do meio de um baralho
antigo e lançamos os
dados, cortamos  os dedos;
o som das baratas a percorrer
o soalho em peregrinação
aflita. escolhes-me uma carta
rasgada; esvazias-me o coração
enquanto durmo e sais pela
janela ainda semi-nua; semi-
apaixonada.
escondes os bilhetes; os beijos;
as palavras numa caixa de
papel e recortas um nome
complexo para a vida
inerte. as pernas adormecidas
do lado de dentro
depois do sexo - como sempre
- e as tuas palavras escondidas
entre o soalho e a peregrinação
do sorriso ténue. as baratas
no vértice do sopro.
desces a avenida com os dedos
ainda doridos e a noite inteira
ao peito a rasgar
os silêncios
entre as árvores e a sombra
dos carros que passam
a assobiar a melodia
gasta do teu corpo.  

sexta-feira, 28 de março de 2014

bebedouro



há dias em que o sorriso;
os olhos abertos de alguém
que não existe se expandem
sobre o teu corpo e é o abraço
possível.

a caixa de cartão rasgada é uma
espécie de cama; as costas;
o sangue das costas a
cobrir o chão onde escorrem
os sonhos
saltar do passeio com a criança
que sobra do corpo cansado e cair
triste no chão com os joelhos
esfolados
os vidros; estilhaços; espalhados
pelas pernas que suportam, ainda,
o corpo ligeiro de um homem sem
alma.
peço uma moeda para comprar
outro sonho, outra cama;
talvez um cartão mais resistente
que não ensope com a chuva;
com as lágrimas. mordo devagar
as irregularidades físicas de
estar vivo; de tentar o movimento
na esperança que a vida,
as costas ensanguentadas
sobre a calçada
sejam o carinho que carrega
os pés descalços para os beirados
e as mãos cansadas que se apoiam
no ventre quando
os olhos de alguém
tão bonito como tu
caem sobre o peito e rasgam
o externo na trajectória do beijo. 

o rio transborda
e os velhos cortam
o pescoço a duas ou três
galinhas.
 ainda correm; sonham
no espaço que sobra
entre a cabeça e o
coração.

sexta-feira, 21 de março de 2014

Colmeia vazia

gostava de saber o teu nome
a tua voz perdida numa morada
qualquer e eu sozinho para sempre
numa cozinha antiga com um tacho
ainda ao lume - ainda as entranhas
do meu pai, dos meus avós a cozinhar
em lume brando porque o tempo
se encarrega de fechar os armários
ainda com corpos, restos de corpos
a decompor a madeira - caruncho -
o meu coração com buracos de onde
verte o sangue; a voz, a cascata em
que o teu nome, o teu sorriso que
nunca,
as tuas mãos a recortar o peito onde
antes o teu olhar adormecido;
uma espécie de felicidade.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

quando se grita e o coração (já) não faz eco



o momento exacto do
meu desespero
e a beleza do mundo
a escorrer nas paredes
do quarto vazio.
o teu abraço, o meu;
os teus lábios feitos
de carne e poesia
ainda nos meus olhos
e os armários cheios
de recordações que
ficam e se apagam
na intermitência de
viver assim, sobreviver
assim, como se
um sorriso fosse
ainda possível.
como se a tua voz,
o teu silêncio me
procurassem noutros
lábios mas, na verdade,
as tuas palavras
a florescer noutros
lábios, olhos, sexo.
ocupo um espaço
volátil que já não é
meu; onde já não existo.
perceber a morte assim;
escutar o semblante fechado
das aves que caem dentro
do céu; que se perdem,
se encontram;
perduram no voo
um tempo que não fica
e atravessam o oceano
a flutuar sobre a morte;
o cansaço.
o castigo da felicidade
no espaço que ocupas;
no tempo que te ocupa;
é um cigarro apagado
no braço; uma dor
que fica com as estações
e com  as palavras –
quando se aperta o gatilho,
quando o telefone não
toca e os olhos se enchem
de sangue. a bala atravessa o
crânio e fica alojada no coração.
quando se morre não se aprende
devagar.
marca-se no tempo
uma forma de
animal perdido; ferido.
pronto para deitar o
sol sobre a carcaça
que fica sem saber
esperar
a estranha 
amizade da solidão.