domingo, 16 de novembro de 2014

Vinte e dois nós e meio



espalhar as canetas sobre a mesa; o tampo
manchado de vinho e sangue.
a tinta e o plástico; a tampa roída de outras
noites sem dormir . acender um cigarro
com um fósforo molhado e morder o filtro
para não chorar. 

se chegares entretanto não faças barulho
- a terceira tábua depois  da porta tem o hábito
de ranger quando se passa sobre ela devagar -
agarra-me o braço adormecido como se não estivesse
já demasiado frio. movimenta-o de um lado
para o outro e diz que o amor, afinal, não
se despede sozinho. não se vende na
loja de conveniência na prateleira
dos napperons. apaga as luzes;
fecha os olhos: os teus. o que fui
leva-o contigo e deixa que a densidade
da noite se abata sobre o telhado;
sobre este corpo que sonhou
irremediavelmente.

Fertilidade de Péricles



uma pedra sobre a síntese
do corpo e as tuas palavras
todas a povoar o quarto
vazio; as paredes cheias
de animais (quase) vivos
e o movimento mecânico
das pernas cansadas
a consentir o espaço
que se ocupa durante noite;
os livros ainda sobre a mesa
partida são o reflexo do solstício;
a agonia e o elástico degradado
como se a apertar umas folhas
vazias a cheirar a limão.
a estrutura das mãos marcada
na contracapa e o teu assobio,
em contra-tempo, a subtrair ao
universo todas as teorizações
possíveis. a estética, a morte,
o movimento mecânico das palavras
sobre as pernas cansadas; o espaço
consentido no meu peito para um
reflexo invisível .
o rosto intensamente azul e os
pés frios a segurar a matéria
inaugural; um rio a formalizar
a fluidez da alegria num tempo
em que as cheias habitam a
penumbra íntima; os lábios secos
a dificultar a articulação e
alguém deitado na minha
cama a recitar a Ilíada em
latim. as palavras mecânicas
e cansadas sobre o movimento
das pernas. a noite a cheirar
a limão e os meus olhos (sempre)
demasiado perto dos joelhos
para proteger o mundo
da percepção incauta; a vontade
fértil do horizonte mínimo.  
se puderes abraça-me, ainda,
quando a noite, o espaço,
o cansaço; o sorriso mecânico.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Manual inoperável de gestão comportamental IV

ofereço as flores
que me sobram
para que dances
com o que resta
de mim
e procuro uma casa
para voltar depois
de acabar a noite.

os animais  conduzem
o corpo pelo espaço
e preenchem-me o colo
com a electricidade
desconexa e sanguínea.

deito permanganato de
potássio sobre o  flanco
em ferida e espero que
o tempo. o sangue corra
para fora dos dias inteiros
e fragmente o silêncio
que escapa de entre os
dentes.
fecho a camisa com
cuidado para não manchar.
canto para dentro da noite
que já é só minha,
como as palavras que
encharcam o tecido
e apertam o elástico
para que
a velocidade
o silêncio e a voz e o barulho
e as tuas mãos dentro dos braços,
do peito, das veias, das cartas por
abrir
me apertem o tronco e acabem
pelo menos uma vez com
tudo o que ainda há entre a
roupa e a pele, entre o metal
e o líquido e o sangue e o calor;
a ignição de um órgão inacabado.

o amor não são palavras compridas
e eu já nem sei amar tão-pouco.

terça-feira, 17 de junho de 2014

Capitular


o peso das mãos
sobre a cama onde
os insectos; as unhas
desagregadas se enrolam
no cheiro da carne em
decomposição.
os lábios cheios de sangue
e os olhos fechados para
não explicar o desespero
de estar, de ser, só. 

corrige-me a postura;
a posição dos dedos
dentro da boca à procura
de acabar a noite com
a cabeça dentro da sanita
e o coração no fundo do
estômago reduzido a um
silêncio de morte,
suco gástrico
e movimentos peristálticos.
as costas da mão com
o peso vazio de não
servir de apoio a
ninguém. 

os insectos perdidos
a recortar a madeira
em forma de árvore
como se o tempo
dançasse e as palavras
se misturassem na
língua para dizer
que, afinal, não sei
morrer assim.  
não posso. 

segunda-feira, 2 de junho de 2014

negócio de distâncias



passo pelo amor com
as malas cheias.
o sabor ácido das
palavras que sobram
e nunca chegam a
significar
nada. 

repito 

adormecer despido
sobre a cama sem que
ninguém procure
justificação para
morrer assim;
um silêncio oco que me
contém.
acordo durante a noite
com a sensação de
guardar no peito
a lâmina ainda
quente de cravar
sons entre as
costelas.
sou o que sobra
de um poema
inteiro.
não me encontro o
sorriso entre as
folhas rasgadas
e corro; canso-me
depressa da velocidade
do mundo e deixo-me
cair na esperança; 

deixo cair a esperança 

de um dia ter os bolsos
vazios quando encontrar
uma moeda que se possa
trocar por mais um dia
feliz em qualquer loja de
conveniência.

sexta-feira, 23 de maio de 2014

exercício XIV - porquê?



Repito o teu nome com os
dedos em ferida. a máquina
de escrever a romper o tecido
entre os olhos; atrás dos animais,
os bonecos de corda a correr
de um lado para o outro em
cima da bancada.  
cortar o sobrolho
dentro do peito para tirar um
pêlo encravado. os brônquios
ainda a dançar o fogo do tempo
cansado; das vidas acabadas
nos recantos cíclicos da chuva.
come-me os braços enquanto
posso sentir os teus dentes;
um pedaço de carne infectada,
putrefacta; consciente.

a tua voz a é um soçobro lapidado
na mente. 

quando fecho os olhos e os teus
lábios se aproximam;
quando os olhos se abrem
e o beijo se afasta; o calor
das palavras desaparece
logo na sinopse do amor.
humedeço a distância
silenciosamente.
as cartas debaixo da
cama mas o punhal
no braço esquerdo,
o elástico, o calor do
tempo a lembrar apenas
que estou sozinho.
fecho a porta da casa de
banho e espero por ti;
o aço que interrompe
o caminho do coração
e acelera as palavras todas
que ficam por dizer. 

esculpo a ausência
numa folha em branco.

outro risco aleatório
a delimitar o lábio superior
e inferior
respectivamente.


quinta-feira, 15 de maio de 2014

etiqueta



tenho um castelo de cartas
debaixo dos pés;
o rascunho de um poema
no punho fechado e
nenhuma boca a dizer
que o sorriso pode
despertar o silêncio
imóvel. 

se chorares abraça-me.
fecha-me os olhos com
um beijo que se possa
guardar,
ainda,
depois
do amor.